Ata de nossa reunião de 06 de outubro de 2026
Hora: 19h – terça-feira
Lugar: Restaurante Mandarinier, na Rua Santo Inácio, 295, Moinhos de Vento
Livro - “Via Gemito” de Domenico Starnone.
Compareceram ao encontro neste mês, apenas 5 (cinco) integrantes do clube: Cleo, Karin, Lise, Suzana e Titina.
Nossa mesa era redonda, no fundo do restaurante. Muito confortável. Elogiou-se bastante a decoração, e conversou-se (como quase sempre) sobre problemas de saúde, e problema odontológicos. Comentou-se o número de novos restaurantes na cidade: Makoto, Pobre Juan, MÜ que fechou e Kampeki, que abrirá no local.
A seguir, pedimos de entrada pãezinhos com creme azedo e outras pastinhas. Vinho branco para acompanhar. E já fizemos os pedidos. Todas pediram camarão com massa. E continuamos conversando sobre assuntos variados, aluguéis, investidores em restaurantes, amigas, lembrança de amigas que nos deixaram, empreendimentos, netos, e muito mais.
E, enfim, começamos a reunião. Falei sobre o autor: Domenico Starnone é um escritor, roteirista e jornalista italiano, considerado um dos autores mais prolíficos e celebrados da literatura italiana contemporânea. Nasceu em 15 de fevereiro de 1943, em Saviano, nos arredores de Nápoles, e hoje vive em Roma. Autor de mais de uma dezena de romances, é casado há décadas com a tradutora Anita Raja, apontada como a pessoa por trás do pseudônimo Elena Ferrante. Filho de Rosa e de Federico Starnone, um pintor napolitano autodidata com dificuldades financeiras, ele fez da figura paterna o centro de sua obra mais premiada, Via Gemito, que foi o livro lido esse mês no Clube. Via Gemito, de Domenico Starnone, venceu o Prêmio Strega de 2001 e é visto como sua obra mais ambiciosa. Escrito pouco depois da morte do pai do autor, é um romance fortemente autobiográfico, um acerto de contas com um pai mitomaníaco, talentoso e destrutivo, narrado por um filho que se envergonha dele. Starnone evita simplificar Federico: ele é mentiroso, violento e irritante, mas também sensível e faminto por reconhecimento, e é o eixo que atrai e fere toda a família. O livro mostra a memória como um território em disputa, e a escrita como o lugar onde o filho finalmente confronta o fantasma paterno.
Prosseguindo, apreciamos a entrevista com o autor em 09/07/2026) fornecida pela Denise, que resumo a seguir:
Aos 83 anos, o escritor napolitano, ex-professor e hoje dedicado apenas à escrita (casado com a tradutora Anita Raja), revisita sua infância nos anos 40 e 50 a partir de uma palavra: “Vanesia”, termo dialetal com que o pai chamava a mãe e que, para o menino, soava belíssimo.
Starnone descreve um mundo de papéis rígidos: mulheres silenciosas e confinadas ao lar, homens no comando absoluto. O pai, eletricista ferroviário, era uma presença dominadora e ciumenta, num sistema em que bater em mulher não era condenado, mas passear de carro com o filho pequeno era. A mãe, órfã aos 2 anos, com apenas três anos de escola e falante só do dialeto, trabalhava como costureira de luvas desde criança; dela o autor guarda a imagem da máquina Singer envolta numa “bruma” mágica, e a história de amor dos pais lhe chegou sobretudo pelas tias.
O ponto central é que essa mãe é, em grande parte, imaginada: o menino a via como a mais bela, mas não sabe se era real ou efeito da autoridade do pai. Os ciúmes paternos a tornavam sempre “suspeita”, e o filho internalizou o medo de que ela partisse. Ora parecia deslumbrante, ora apenas uma mulher cansada, irritada com as cenas do marido.
Starnone diz escrever para pôr ordem numa infância caótica, organizada em torno do pai que inventava histórias e do menino que se submetia a elas. Embora a figura materna seja reconstruída pela imaginação, ela nasce da experiência vivida e revela como viviam homens, mulheres e crianças entre os anos 40 e o início dos 60, inclusive a hierarquia que tratava o dialeto, e o próprio ser napolitano, como inferior.
Por fim, fala da morte: na infância, era um jogo (a formiga, a folha morta). Só a entendeu ao perder a avó e a mãe em 1965, com poucos meses de intervalo, e foi então que se tornou adulto.
E, então, passamos ao debate. Para minha grande surpresa, algumas amigas não gostaram, ou gostaram pouco do livro. Eu, particularmente, gostei muito. Comentou-se o narcisismo do pai, a história das avós, a postura da mulher do narcisista, que deve colocar limites, concluindo-se que a sua mãe dava, ou tentava dar, limites ao pai, que era muito ciumento. Todo o narcisista, concluiu-se, é ciumento, tem baixa auto-estima. Questionou-se o que torna uma pessoa narcisista, só a genética ou educação? Fatores ambientais e infância, negligência infantil? Excesso de admiração poderia alimentar essa visão inflada do ego? Ou cobranças excessivas das crianças, que se veem tendo que ser impecáveis? São várias as hipóteses. Não se chegou a nenhuma conclusão. Lembramo-nos de autores e conhecidos que mantiveram relacionamentos tóxicos. Falou-se muito também, na mitomania do pai do autor, transtorno ou comportamento crônico no qual a pessoa sente uma compulsão incontrolável para mentir.
Falou-se mais de questões atuais, um pouco sobre política (não muito) e o jantar estava muito bom. Todas gostaram. Comentou-se, ainda, o caso Elena Ferrante e uma reportagem jornalística segundo a qual o patrimônio do autor e de sua esposa teria crescido de forma expressiva nos últimos anos, em coincidência com o fenômeno editorial da escritora. Esse dado reforçaria as especulações de que a mulher de Domenico seria a verdadeira autora por trás do pseudônimo Elena Ferrante.
Sobremesa para duas pessoas compartilhada por todas, como se tem feito.
Foi tirada a foto e escolheu-se, então, o livro para a próxima reunião, dia 04/11, quarta-feira: “Os Cem Anos de Lenni e Margot” de Marianne Cronin.
Boas leituras, beijos a todas e até lá, Titina.

